UM DIA, UM
GATO
Percival
Puggina
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Repita as perguntas aos que viveram o tempo dos fatos. Perceberá que apesar das
muitas e graves restrições que se faz e se deve fazer ao regime de então, aquela
versão quase unânime entre os mais jovens estará longe de ser majoritária neste
grupo. Relatarão que o Brasil não foi, naqueles anos, o que hoje se ensina. Com
maior surpresa ainda, perceberá que os terroristas e suas organizações
praticamente não têm simpatizantes entre os que testemunharam os acontecimentos
por eles protagonizados. Aliás, fracassaram por absoluta falta de apoio popular.
Escassos serão os que lhes atribuem qualquer mérito na necessária
redemocratização. Com razão dirão que a retardaram. Não os reconhecem como
democratas.
Valerá a pena ir além. Pergunte aos que viveram apenas no tempo das versões o
que sabem sobre Ulysses, Covas, Teotônio, Montoro, Brossard, para citar alguns
dos muitos que, no embate político foram forçando a porta da abertura. E a
abertura da porta. Nada saberão porque não lhes foram mencionados! O que
importa, à versão, é desprezar o processo político útil para exaltar o
revolucionário inútil. Capisce? Menor ainda será o conhecimento sobre o papel
das lideranças empresariais, sindicais e religiosas que se empenharam pela
normalidade institucional. A contribuição dos militantes da luta armada para a
democracia foi a mesma que as cheias do Nilo prestam à venda de ingressos para
os shows da Broadway. Não li um único livro escrito por intelectuais de esquerda
participantes daquelas organizações que se atrevesse a estabelecê-la. Antes,
negam-na com firmeza.
Convém aos que, após a abertura e a anistia, ingressaram no jogo político, posar
de estátua da liberdade diante do porto de Nova Iorque. Volta e meia algum
ministro, olho na versão, reverencia os que lutaram pela democracia apontando
para as pessoas erradas. "E o título? E o título?" perguntará o leitor, vendo
que o artigo termina. Ora, o filme "Um dia, um gato" ganhou o Prêmio do Júri no
Festival de Cannes de 1963. Conta sobre um gato com óculos mágicos. Quando
olhava para as pessoas, elas adquiriam uma cor relacionada com seus defeitos e
virtudes. Era um pânico na cidade. Os mentirosos, por exemplo, ficavam
roxos.
Zero
Hora, 1º de julho de 2012
Imagem inserida pelo Blog
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